"Or Else What?" - (Photo submitted by a reader.)

“Or Else What?” – (Photo submitted by a reader.)

Portuguese translation of “Violence is Golden” by Daniel Sender.

Muitas pessoas gostam de pensar que são “não-violentas.” Geralmente dizem “abominar” o uso da violência, e ela é vista de forma negativa pela maior parte delas. Muitos falham em diferenciar entre a violência justa e injusta. Alguns tipos vãos e hipócritas gostam de pensar que foram criados acima da cultura sórdida e violenta de seus ancestrais. Eles dizem que “a violência não é a resposta”. Dizem que “a violência não resolve nada”.

Eles estão errados. Cada um deles confia na violência diariamente.

No dia da eleição, pessoas de todas as esferas da vida formam fila para irem às urnas e, ao fazerem isso, esperam influenciar em quem empunhará o machado da autoridade. Aqueles que querem acabar com a violência – como se isso fosse possível ou desejável – freqüentemente procuram desarmar seus concidadãos. Na realidade, isso não acaba com a violência. Meramente dá à máfia do Estado um monopólio sobre ela. Isto torna você mais “seguro”, desde que não irrite o chefe.

Todos os governos – de esquerda, direita ou outro – são, por sua própria natureza, coercivos. Eles têm de ser.

A ordem demanda a violência.

Uma regra que no fim não é apoiada pela violência é meramente uma sugestão. Os Estados contam com leis endossadas por homens prontos a promoverem violência contra os infratores. Todo imposto, código e requisição de licenciamento exige uma progressão crescente de penalidades que, no fim, devem resultar na tomada de propriedade a força, ou no aprisionamento por homens armados, preparados para utilizarem a violência em caso de violência ou desacato. Toda vez que uma mãe de futebol [1] ergue-se e exige penas mais duras para aqueles que dirigem alcoolizados, vendem cigarros a menores, são donos de pit bulls, ou não fazem reciclagem, ela está peticionando ao Estado que ele utilize da força para impor sua vontade. Ela não está mais pedindo gentilmente. A viabilidade de toda lei de família, armas, zoneamento, tráfego, imigração, importação, exportação e regulamentação financeira depende tanto da disposição, quanto dos meios do grupo para exigi-los através da força.

Quando um ambientalista exige que “salvemos às baleias”, ele ou ela está, na realidade, argumentando que salvar às baleias é tão importante que vale a pena fazer mal aos seres humanos que fazem mal às baleias. O ambientalista pacífico está peticionando ao leviatã que autorize o uso de violência no interesse de proteger leviatãs. Se os líderes de Estado concordassem e manifestassem que, de fato, era importante “salvar às baleias”, mas se recusassem a penalizar àqueles que trazem mal a elas, ou se recusassem a impor estas penalidades sob a ameaça de uma violenta força policial ou ação militar, o sentimento expressado seria um gesto sem sentido. Aqueles que queriam trazer mal às baleias sentir-se-iam livres para fazê-lo, como é dito, com impunidade – sem punição.

Sem a ação, palavras são apenas palavras. Sem a violência, leis são apenas palavras.

A violência não é a única resposta, mas é a resposta final.

Podem-se fazer argumentos morais e éticos, apelar à razão, emoção, estética e compaixão. As pessoas certamente são movidas por estes argumentos, e quando suficientemente persuadidas – contando, é claro, que estes não sejam excessivamente inconvenientes –, elas comumente preferem moderar ou mudar seus comportamentos.

Contudo, a submissão voluntária de muitos inevitavelmente cria uma vulnerabilidade que fica à espera de ser explorada por qualquer pessoa que desconsidere as normas sociais a éticas. Se todo homem baixar suas armas e recusar-se a pegá-las de volta, o primeiro homem que pegá-las pode-rá fazer o que quiser. A paz somente pode ser mantida sem violência contanto que todos mantenham o poder de barganha e, para manter a paz, cada pessoa, em cada geração sucessiva – mesmo depois que a guerra tenha sido esquecida há muito –, deve continuar a concordar em permanecer pacífica. Para sempre e eternamente. Nenhum delinqüente ou presunçoso poderá jamais perguntar “Ou então o que?”, porque em uma sociedade verdadeiramente não-violenta, a melhor resposta disponível é “Ou então acharemos que você não é uma pessoa muito legal e não teremos nada a dividir com você”. Nosso encrenqueiro estará livre para responder, “Não me importo. Vou tomar aquilo que quiser”.

A violência é a resposta final à questão “Ou então o que?

A violência é o padrão ouro, a reserva que garante a ordem. Na realidade, ela é melhor que um padrão ouro, pois a violência possui um valor universal. Ela transcende as peculiaridades de filosofia, religião, tecnologia e cultura. As pessoas dizem que a música é uma linguagem universal, mas um soco na cara dói da mesma forma não importa qual língua você fale, ou que tipo de música prefira. Se você está trancado em um quarto comigo e eu agarro um pedaço de cano e gesticulo para atacá-lo com ele, não importa quem você seja, seu cérebro de macaco vai imediatamente entender “ou então o que”. E, desta forma, certa ordem é alcançada.

O entendimento prático da violência é tão básico para a vida e a ordem humana como a idéia de que o fogo é quente. Você pode usá-lo, mas deve respeitá-lo. Pode-se agir contra ele, e algumas vezes controlá-lo, mas não desejar que ele desaparecesse. Como um incêndio, algumas vezes é sobrepujante e você não sabe que está vindo até que seja tarde demais. Às vezes é maior que você. Pergunte ao Cherokee, ao Inca, aos Romanov, aos Judeus, aos Confederados, aos bárbaros e aos Romanos. Todos eles sabem “Ou então o que”.

O conhecimento básico de que a ordem demanda a violência não é uma revelação, mas para alguns parece ser como tal. A própria noção disso pode tornar algumas pessoas apopléticas e alguns tentarão furiosamente disputá-lo com todos os tipos de argumentos enrolados e hipotéticos, pois não soa muito “legal”. Mas algo não precisa ser “legal” para que seja verdadeiro. A realidade não precisa se curvar para que acomode à fantasia ou a sentimentalidade.

Nossa complexa sociedade se baseia na procuração de violência ao grau de que muitas pessoas comuns no setor privado podem vagar pela vida sem realmente ter entendido ou pensado profundamente sobre a violência, pois estamos removidas dela. Podemos nos dar ao luxo de percebê-la como um problema distante, abstrato, que está para ser resolvido através de uma estratégia magnânima e programação social. Quando a violência bate na porta, simplesmente fazemos uma ligação e a polícia vem “parar” a violência. Poucos civis realmente tomam tempo para pensar que aquilo que realmente estamos fazendo é pagar um bando armado com dinheiro de proteção, para que eles venham e façam ordenadamente a violência a nosso favor. Quando aqueles que fariam a violência contra nós são levados pacificamente, a maioria de nós realmente não faz a conexão, nem mesmo afirmamos a nós mesmos que a razão pela qual o perpetrador permite ser preso é por conta da arma no quadril do policial ou o entendimento implícito de que ele será eventualmente caçado por mais e mais oficiais, os quais possuem a autoridade para matá-lo caso ele seja considerado uma ameaça. Isto é, se ele for considerado uma ameaça à ordem.

Existe em torno de dois milhões e meio de pessoas encarceradas nos Estados Unidos. Mais de noventa por cento delas são homens. A maior parte deles não se entregou. A maioria não tenta escapar durante a noite pelo fato de que existe alguém em uma torre de guarda pronto para atirar neles. Muitos são infratores “não-violentos”. Mães de futebol, contadores, celebridades ativistas e vegetarianos free-range, todos mandam seus dólares de imposto e, por procuração, gastam bilhões e bilhões para alimentar um governo armado que mantêm a ordem através da violência.

É quando a nossa violência ordenada dá lugar à violência desordenada, como acontece em conseqüência de um desastre natural, que somos forçados a ver o quanto confiamos naqueles que mantém a ordem através da violência. As pessoas pilham porque podem e matam por pensarem que poderão escapar impunes. Lidar com a violência e encontrar homens violentos que irão protegê-lo de outros homens violentos subitamente se torna uma preocupação real e urgente.

Certa vez um amigo relatou-me a história de um incidente contado por um amigo de sua família, que era um policial, e acho que ela prova este ponto. Alguns adolescentes estavam passeando no shopping, do lado de fora de uma livraria. Eles estavam jogando conversa fora e falando com alguns policiais que estavam rondando. O policial era um cara relativamente grande, não era alguém com quem você iria querer se meter. Uma das crianças falou ao policial que ele não via motivo pelo qual a sociedade precisava da polícia.

O policial inclinou-se e disse ao pequeno menino, “você tem qualquer dúvida em sua mente se eu poderia ou não quebrar seus braços e levar de você este livro, se eu o quisesse?”

O adolescente, obviamente abalado pela brutalidade da declaração disse, “não”.

“É por isso que você precisa de policiais, menino”.

George Orwell escreveu em seu “Notas sobre o Nacionalismo” que, para o pacifista, a verdade de que “Aqueles que ‘renunciam’ a violência podem fazê-lo somente porque outros estão comprometidos com ela em seu nome” é óbvia, mas impossível de aceitar. Muito da irracionalidade provêm da inabilidade em aceitar nossa dependência passiva da violência para a proteção. Fantasias escapistas do tipo de “Imagine”, de John Lennon, corrompem nossa habilidade de ver o mundo como ele realmente o é, e de sermos honestos com nós mesmos sobre a naturalidade da violência para o animal humano. Não há evidência que apóie a idéia de que o homem é uma criatura inerentemente pacífica. Há substancial evidência que apóia a noção de que a violência sempre foi uma parte da vida humana. Todos os dias, arqueólogos desenterram um novo crânio primitivo com danos feitos por armas ou traumas por pancadas. Os primeiros códigos de leis eram chocantemente horrendos. Se nos sentimos menos ameaçados hoje, se sentimos como se vivêssemos em uma sociedade não-violenta, é somente pelo fato de termos cedido tanto poder sobre nossas vidas cotidianas ao Estado. Alguns chamam isso de razão, mas nós poderíamos muito bem chamá-lo de indolência. Uma indolência perigosa ao que parece, dado o quão pouco a maior parte das pessoas diz confiar nos políticos.

A violência não provém dos filmes, videogames ou da música. Ela vem das pessoas. Já é hora delas acordarem da névoa de seus anos ‘60 e começarem a ser honestas novamente sobre a violência. As pessoas são violentas, e isso é OK. Você não pode legislar para acabar com isso ou desconversar. Baseado na evidência disponível, não há razão alguma para acreditar que a paz mundial será algum dia atingida, ou que a violência possa ser “impedida”.

Já é hora de largar as preocupações e aprender a amar o machado de batalha. A história ensina que, se não o fizermos, alguém o fará.

 

[1] N.T. “Soccer Mom”. Expressão norte-americana referente às mães hiper-participativas.

Share →